Dias Cinzas
Escrevi essas linhas vendo e ouvindo os videos a seguir, faça o mesmo enquanto lê:)
http://www.youtube.com/watch?v=ymTrueZYcas
http://www.youtube.com/watch?v=fwGHQ6WyQFU
Mais uma dos meus devaneios...
Eu não posso impedir.
Enquanto as pessoas ao meu redor sobem alto e descoladas rebolam e sorriem e são super-hiper-mega-ultra-simpáticas, eu escuto Coldplay e deixo essa música me inundar. Eu mergulho e me encharco dessa dor sem dor. Dessa perda de quem não tem nada à perder. Eu ando por aí. Mãos no bolso. E tá frio pra cacete. O dia ta cinza. Alguns dizem nublados. Eu digo cinza. Essa cor me leva pra casa. Sei lá. Sabe aquela coisa que todo mundo sente? Aquela, que todo mundo acha que não é daqui? Pois é. Eu me sinto assim. Mas em dias cinzas eu me sinto em casa. No meu devaneio favorito. Na minha solidão bonita. Sinto o meu corpo tremer debaixo de tanto roupa. É tá frio mesmo. E se não tivesse tanto, com certeza ficaria um pouco mais. Vendo essa garoa cair na minha cabeça e molhando timidamente meus cabelos sem jeito, sem corte e sem moda. É dia cinza e é dia bom. Não tenho à quem ligar e isso não me incomoda, sei que o meu melhor amigo vai abrir a porta de casa e perguntar :”Já tomasse café Cá?”Eu não to nem aí. Cores sempre são bem vindas (Sr. Reszka), mas nenhuma delas é tão forte ao ponto de me transportar para casa quanto essa. Uma sensação de vazio absoluto seguido de turbilhão de coisas trancadas numa mente que não descansa. Terras e idades e solos e notas. Trouble. Repete eternamente esse tom no vácuo. E eu ando um pouco mais. E o frio aumenta. Mas a música não pára. E me envolve e eu não quero me libertar. Permanecerei quanto for preciso até que toda essa angustia sem nome, essa solidão aconchegante e essa dor sem razão, atenuem-se completamente. Quero beber todas as gotas desse momento intensamente dramático. Mas de um drama artístico, necessário e maduro. Não tenho mais crises existenciais. Eu sei exatamente quem sou, por isso me lanço em dias como esse sem reservas e sugo partes de pensamentos brutalmente interrompidos. Em dias como este, em que as ruas estão vazias, eu ando e procuro encontrar um rosto saudável pelas ruas gélidas e desertas. Um rosto de quem não consegue ficar em casa em dias em que a rua chama para um passeio por dentro da alma. É essencial que os dias sejam varridos por essa temperatura em que as pessoas temerosas ligam umas às outras, perpetuando os contatos, e permanecem no sossego do seu lar. Não há necessidade da uva no barril pra me fazer pensar e filosofar. Há pinheiros nessa rua ladeada e ela torna-se incrivelmente mágica por isso. Há cor bege nesse lugar, pedras com limo e eu. Sozinha pensando e remoendo uma frase: menos que amor eu não aceito. Mas olho e me vejo: sempre nessas minhas caminhadas solitárias e ternamente doces. Tenho medo de qualquer coisa que me faça chorar. E é muito fácil a perda. Essa segurança que tenho hoje, por não ter nada à perder, é me de um benefício sem tamanho. Eu consigo me sentir viva. Embora deseja, vez por outra, ser acalentada. Mas... O sexo é tão pouco e eu digo não. Se for menos que amor eu não aceito. Não tenho a vã necessidade de me sentir bem por estar com uma pessoa ao meu lado que não escuta o que eu falo. Que só pensa no que vai falar pra me levar pro seu apartamento e no dia seguinte não vai me ligar. Não tenho a auto estima baixa a ponto de ter que ouvir frases prontas e cantadas. Não há nada pior do que uma cantada. Eu olho sério e penso “meu Deus, o que eu to fazendo aqui? Por isso não me ‘junto’. Não tenho nada pra falar com alguém que é tão “legal”. E não tenha isso como auto compaixão. Muito pelo contrário. Que amor é esse? Eu não sei explicar. Não me venha com palavras, elas deixam de ser verdadeiras assim que transpassam os lábios. Eu não tenho pressa. Não tenho nada. Só o horizonte que não se vê em dias como este, mas, inerentemente, sabemos que está lá, fazendo brilhar o mundo de alguém. Num outro mundo, de outros gostos e outros cheiros. Esse é o meu romantismo? Sim. Essa vida corrente e essa onda gigantesca que nos fazem andar e suspirar. Ainda há palavras repetidas e secretas e bonitas. E, e, e ... Eu caminhei muito pra ter uma cama pra chorar. Pra sorrir, pra ser amada. Eu simplesmente não me jogo sem reservas. Não. Em dias como este... Dias cinzas, eu poderia morrer que me sentiria feliz: eu permaneço dentro de mim. Não me perdi. Não me vendi. Morri de amor e chorei de saudade. Caminhei dois quilômetros pra chegar numa casa e descobri que o endereço estava errado. Hoje, não sei. Não quero bater em portas erradas e pedir abrigo à desconhecidos. Quero permanecer imutável mudando a cada instante. Cada nota inebriando os dias salgados, cinzas, melancólicos e reais. Eu choro as vezes. Mas nunca de amargura. O choro é bonito e saudável. E revigorante. E indispensável. Nos meus dias cinzas. Todas as músicas emocionantes do mundo me fazem companhia e eu faço companhia para essa pessoa maravilhosa que cozinha enquanto canta Angel do Robbie Willians. Que dança descalço, se joga no pescoço do irmão e corre com os pés no chão nos dias em que algodões carregados forram o céu do inverno. Inverno necessário. Talvez a vida me queira só. Não sei. Mas é o que parece. E, o que corrobora essa minha idéia, é esse meu fascínio por solidão, por músicas, por despedidas.
Entretanto, esses são momentos e, eu estou eternamente à espera que chegues logo. Que entres molhado dizendo ‘Só tinha lá na padaria do Vicente’. Que insista em dizer que Gandalf não é nome pra cachorro e que o meu cabelo fica melhor comprido. Recordo-me, de tanto ansiar, do dia que amei intensamente. Que nunca mais quis mudar de canal e nunca mais quis ouvir sobre outra coisa além de você falando do seu pai e do relacionamento difícil de vocês. Você se lembra da música que o Bono Vox escreveu pro pai dele e você ficou falando enquanto todos dormiam menos eu? E logo em seguida tocou esse vídeo que coloco no meu orkut.. Eu não cabia em mim. Desenrolava-se na minha frente uma pessoa que sente intensamente. Que vive, chora, se arrepende. Não podia ti tocar, como não posso agora, mas eu senti uma coisa que transcende os sentidos. E teu nome pode ser Antônio, Thiago, Daniel, não importa, apenas seja capaz de instigar em mim essa gigantesca avalanche de derrubar as defesas, de me deixar totalmente extasiada com esses sentimentos que não mudam e nos fazem únicos. Nesses dias cinzas, nunca estou em mim. Pelo menos não superficialmente. Por isso entendo as ausências. Suas, de todo mundo. Por isso escrevo. Pra por numa outra dimensão esse emaranhado de luz que me prende. Pois sei que enquanto não escrever, mesmo que o sol volte a brilhar, jamais resolverei esses meus grandes pequenos problemas eternos dos meus caros dias cinzas...